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Homenagem ao autor

Por Carolina Zhuo*

O Pagador de Promessas

O Pagador de Promessas é uma obra escrita no ano 1959, por Dias Gomes, um autor que sempre demonstra atenção para as causas sociais em seus textos. Sendo uma peça teatral, ela retrata uma história religiosa, com destaque nas críticas em humanidade, intolerância religiosa, entre outras.

Zé-do-Burro, que é o protagonista da história, é uma pessoa ingênuoa e devota. O que ele quer é só cumprir a sua promessa para Santa Bárbara por ela salvar o seu melhor amigo——um burro que “tem alma de gente”. Ele carrega uma cruz feita de madeira e caminha por sete léguas, mas quando ele chega à igreja da santa em Salvador, o padre impede a entrada dele na igreja, achando que ele fez uma promessa para Iansan, que é um demo na opinião dele. Pobre Zé! Nesta sociedade complexa, ele não compreende os códigos e os poderes no mundo em que ele vive. Ele não consegue compreender por que lhe tentam impedir de cumprir sua promessa e insiste em cumprir a sua promessa até a morte no fim, mesmo que a sua mulher esteja sempre tentando o convencendo  a sair. A igreja é dominada por padre e Monsenhor não tem vontade de apurar o problema. Enfrentando a burocratização no sistema católico e a intolerância da igreja católica, ele não tem capacidade de realizar o seu simples sonho. O objetivo de todas as religiões é aperfeiçoar o homem como ser humano a fim de que seja digno de chegar até Deus. Mas aqui a religião resulta em matar Zé.

Além de deparar com a intolerância do padre, ele também encontra-se com a indiferênça das outras pessoas, especialmente, as pessoas de classe social mais alta. O Bonitão seduz Rosa, que é a mulher do Zé, a trair ele. Há pessoas que fazem aposta sobre quando ele pode entrar na igreja. Mas também há pessoas que querem o ajudar, tal como os capoeiristas, mas falta a eles a capacidade. Isso é um teste à humanidade e moralidade do povo.

Há um personagem que importa realçar, que é o repórter, o representante da mídia. Ele tem mais interesse em acontecimentos com repercussão social do que em genuina devoção de Zé, criando uma notícia sem fundamento nenhum em busca de interesse próprio. Falta à mídia a sensação de responsabilidade por uma sociedade mais harmoniosa.

No fim do teatro, a polícia chega na praça para o Zé, buscando indícios para condená-lo. Mas o Zé insiste na sua inocência e infelizmente, morre num caos por um tiro mortal. Isso é uma cena de muito impacto. As autoridades da sociedade não tem capacidade nem vontade de apurar os problemas, causando diretamente a tragédia do Zé. Eles são indiferentes, enfrentando os sofrimentos do povo.

Zé é só um examplo das tragédias assim. Ele morre por causa daquele tiro, mas a causa fundamental é indiferença da sociedade e a incapacidade de realizar a justiça social das instituições e autoridades. Além disso, essa peça fala muito sobre o preconceito e intolerância religiosa, sendo um contexto de todo o acontecimento. Aqui existe um grande ironia. A religião  existe para salvar o povo na alma do Zé, mas ela resulta em assassiná-lo.

A peça de Dias Gomes tem propósitos de evidenciar certas questões socio-culturais da vida brasileira, em detrimento do aprofundamento psicológico de seus personagens. Assim, ganha força no drama a visão crítica,até criticar a liberdade capitalista. Baseado no princípio de liberdade de escolha, a sociedade burguesa não oferece ao indivíduo os meios necessários a exercer essa liberdade; tornando-a numa ilusória. Zé tem liberdade de escolher a sua crença, mas não tem liberdade de cumprir a sua simples promessa.

Sendo um dos teatros mais aplaudidos do Brasil, ele apresenta os quadros mais típicos do Nordeste e sobretudo a ingenuidade de Zé-do-Burro, alma humilde e cheia de fé, pelo que é levado ao sacrifício. Mas, pelo menos, a história tem um fim com um pouco de esperança. Zé resolve cumprir a sua promessa em fim, com a morte dele; o padre ainda consegue sentir culpa por o que ele fez; ainda existem pessoas que tentam ajudar o pobre Zé. Este teatrorepresenta uma tortura da humanidade e ainda nos faz  refletir muito.

* Estudante do PPE. Chinesa

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